terça-feira, 1 de março de 2016

“Latifúndio dos Riquelme é bunker da atividade delitiva no Paraguai”

Satélite registra em rosa o mar de droga

Afirma Dario Aguayo, advogado dos presos políticos de Curuguaty


Leonardo Wexell Severo

"No Paraguai, o latifúndio Campos Morombi, de Blas Riquelme, pretendeu anexar, com o massacre de Curuguaty, os dois mil hectares das terras públicas de Marina Kué. Tudo para ampliar seu mar de maconha e soja transgênica”, denunciou Dario Aguayo Dominguez, advogado dos camponeses presos políticos do governo de Horacio Cartes. E sublinhou: “em Morombi está localizado um bunker da atividade delitiva”.

Aguayo esclareceu que, “com 75 mil hectares, Morombi é uma grande plantação de drogas de biotecnologia colombiana”. “O que se produz ali é a variedade que se cultiva nas plantações mecanizadas, que, diga-se da passagem, é a quase totalidade da extensão do bem amealhado, parte rosa da imagem que se pode ver por satélite”, explicou.
De acordo com o advogado, o governo Cartes tenta transformar a área em “reserva natural" somente para beneficiar criminosos. “Uma vez declarada reserva, a área está protegida por uma quantidade de perversos incentivos: não paga imposto imobiliário e outros tributos; não pode ser fracionada, nem expropriada ou ser objeto de usucapião; estando bem amparada com uma ação penal pública”. Com tal decisão, denunciou, “todo o povo paraguaio está pagando pela proteção do bunker. Por isso, o decreto que declara a área como reserva natural deve ser derrogado”.

FRANCO-ATIRADORES

Franco-atirador de óculos preto e roupa camuflada
O advogado denunciou a ação de franco-atiradores para forçar um “confronto” e justificar o sangrento despejo – que custou a vida de 6 policiais e 11 camponeses no dia 15 de junho de 2012 – e abrir caminho à destituição do presidente Lugo uma semana depois.
Para Aguayo, é preciso ter claro que havia um “terceiro passageiro no helicóptero Robinson”. “Ele pode ser visto na foto, de óculos negros, fones de ouvido e vestido de parapara’i (roupa camuflada) da Força de Operações da Polícia Especializada (FOPE), armado com uma submetralhadora com mira telescópica. O cano é visível no lado de dentro da cabina antes de voar de Morombi a Marina Kue no dia do massacre”, assinalou. “Vejam as duas aberturas, uma em cada porta do helicóptero, do tamanho suficiente para disparar até com bazuca”, descreveu.

OCULTANDO PROVAS

Pouco antes do "confronto", dez franco-atiradores da FOPE chegam pelo lado Sul
O fato do atual vice-ministro de Segurança Interna e ex-promotor do caso, Jalil Rachid - vínculado à família Riquelme -, tentar ocultar esta relevante informação e negar ao tribunal o acesso às filmagens realizadas pelo helicóptero, sublinhou o advogado, é uma comprovação da sua parcialidade.
Embora negando a ocorrência dos disparos desde a aeronave, o comissário Roque Fleitas, chefe de Polícia da Agrupação Fluvial e Aéreo Policial, reconheceu que existia “muito material” e que os pilotos seriam “chamados à Justiça”. É sabido que o piloto Marcos del Rosario Agüero morreu antes de abrir a boca, espatifando-se em agosto de 2015 a bordo de uma aeronave com características semelhantes a que pilotava. Também o farto material jamais apareceu. 
“O Robinson possui uma câmara filmadora de alta potência de observação e que sempre nós levamos nos despejos para que o chefe das operações primeiramente voe sobre os manifestantes, localize e observe tudo o que dispõem as pessoas em terra”, reconheceu o comissário.
Não bastasse o helicóptero, condenou Aguayo, durante o despejo “se executou uma caçada com outros dez franco-atiradores da FOPE comandados por Víctor Franco que, por terra, se posicionaram detrás dos camponeses”. “Victor Franco e seus homens entraram pelo monte e os milharais, muito antes de que Erven Lovera - que comandava a ação e foi morto - completasse o cerco aos camponeses pelo lado sul”, frisou.
Portanto, enfatizou o advogado, “conforme pode se ver na foto tirada segundos anteriores à matança, antes que Lovera chegasse para dialogar, os franco-atiradores da FOPE ingressaram por trás, equipados com armas de guerra Galil, M16, AR-15 com miras telescópicas e se posicionaram”. Embora a polícia e a promotoria neguem, estão todos na fotografia.