segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Segundo turno inédito acirra disputa de projetos para a Argentina

Renata Mielli, especial para o ComunicaSul/Vermelho

“Nos próximos 20 dias, a direita vai jogar tudo para derrotar Scioli, mas vai enfrentar a resistência e a luta do movimento social e popular que se recusa a ver a Argentina ser governada por um representante autêntico da direita neoliberal”, afirmou em entrevista exclusiva para o ComunicaSul/Vermelho o presidente do Fórum Argentino de Radiodifusão Comunitária – Farco, Néstor Busso.



Com 94,95% dos votos apurados até o início desta manhã, Daniel Scioli obteve 36,86% dos votos válidos, Maurício Macri 34,33% e Sérgio Massa 21,34%. “A Constituição estabelece que para ganhar é preciso de mais de 40% do votos e que a vantagem do primeiro para o segundo colocado seja de mais de 10% de vantagem”, explica Busso.

Para os Argentinos, o segundo turno é uma novidade, já que as disputas presidenciais anteriores sempre se decidiram na primeira etapa da eleição. Mas mesmo com o resultado apertado Néstor acredita que é possível ganhar as eleições daqui a um mês, no dia 22 de novembro. “O que ocorre é que ontem mesmo, já cientes de que estavam fora do segundo-turno, vários dirigentes do gabinete de Sergio Massa já declararam que votariam em Scioli. Massa é peronista, ele participou do governo dos Kirchner até 2013 e rompeu com Cristina. Sua campanha navegou em um campo que aglutinou eleitores contrários ao governo e eleitores dissidentes do kirchnerismo, mas se mantém fiéis ao peronismo e que, portanto, jamais votariam em Macri, jamais votariam em um candidato que representa o neoliberalismo”, avalia Busso. Para ele, a tentativa da mídia de afirmar que haverá um bloco entre Massa e Macri é difícil de ser sustentada na prática, e que será grande a migração de eleitores de Massa para Scioli. “Por isso, creio sim que sairemos vitoriosos no segundo turno.

Daniel Scioli (FpV) e Mauricio Macri (Cambiemos)

O representante de uma das mais ativas organizações do movimento social argentino, e um dos protagonistas de todo o processo que resultou na aprovação da Lei de Meios, Néstor Busso é bastante otimista em sua análise, mas também muito cauteloso. “O processo político é muito delicado na Argentina e tem muitas semelhanças com o que está ocorrendo no Brasil. O fato de não termos obtido a vitória ontem não significa que fomos derrotados. Isso não é verdadeiro. O kirchnerismo está há 12 anos no governo, e isso produz desgastes de todos os tipos, desde os reais, fruto do processo político e econômico, até os fabricados pela mídia e pela direita. Ambos influenciam a opinião pública e acabam desgastando o governo. Mas, mesmo assim, a presidente tem uma imagem positiva que se estabilizou em torno de 50%. O kirchnerismo triunfou e não foi derrotado”.

Sobre como o movimento social e popular enxerga a candidatura de Daniel Scioli, Néstor Busso foi muito direto: “Daniel Scioli tem uma origem bem diferente de Cristina e Nestor, isso tem que ser dito porque é verdade. Mas todo o discurso de Scioli nos últimos tempos foi de alinhamento, de pertencer ao kirchnerismo, sob a liderança de Cristina. A mídia do poder econômico vai insistir em explorar as diferenças entre eles, vai tentar criar tensões e dissidências, como fez e faz no Brasil entre Lula e Dilma. Claro que existem diferenças de estilo, de posições, mas apesar delas, o governo de Scioli vai dar continuidade às principais políticas e aos grandes temas colocados pelo atual governo. Temas fundamentais sobre a integração latino-americana, e nos aspectos da política econômica. No início, os movimentos populares não acreditavam que Scioli era o melhor candidato. Mas hoje ele tem forte apoio, especialmente quando o outro candidato é Macri, que representa a direita neoliberal, que quer mudar tudo o que foi feito nos últimos anos, voltando com as políticas de Menem”, afirmou Busso.

Segundo Busso, uma vitória de Macri “seria a primeira em que a direita chega ao governo da Argentina pelo voto popular. Maurício Macri foi o construtor do primeiro partido claramente de direita na Argentina e até hoje só governa a cidade de Buenos Aires, com o voto dos setores mais ricos. E hoje a possibilidade é a nacionalização do seu partido. E vamos combater isso até o último momento”.

Apesar do forte apoio popular, Scioli não estará livre das pressões e de fortes debates promovidos pelo movimento social. “Temos bastante claro que Daniel Scioli vai manter as principais conquistas sociais que tivemos nos últimos 12 anos, mas dificilmente poderá avançar nestas conquistas. Vai haver uma continuidade”, avalia Busso.


Esta expectativa de um cenário de manutenção e pouco espaços para avanços é fruto principalmente do estilo cauteloso de Scioli. “Ele não é do tipo que enfrenta conflitos”. Também tem aspectos econômicos envolvidos e possivelmente um cenário de ataque mais acirrado da direita, caso o resultado final se dê por uma pequena margem de votos. “Durante toda a campanha eleitoral, a campanha de Macri adotou um discurso de questionamento do processo, mas vão recorrer a instabilidade somente se isso os interessar. A oposição vai tentar desprestigiar o resultado, mas eles não conseguiram desacreditar as eleições, não houve problema algum. Eles anunciavam que haveria fraude, que haveria incidentes e problemas, e que o país estaria destruído. Cristina disse que temos um país normal, ordenado. Portanto, creio que o discurso golpista que a direita vem utilizando em outros países da América Latina, como no Brasil, pode ser sim utilizado aqui”, respondeu Busso.