quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Memória viva da guerrilha latino-americana contra os falsificadores da História

Efraín Quicanez Aguilar, mais conhecido como Negro José
Herói no anonimato, Negro José relata a exitosa fuga dos guerrilheiros de Che

Monica Fonseca Severo

Aos 84 anos de idade, Efraín Quicanez Aguilar, mais conhecido como Negro José, recebeu a equipe do Comunicasul em La Paz. Logo na chegada, uma análise sobre o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras. Emenda com análise de conjuntura da Bolívia, do embate eleitoral em curso, da luta anti-imperialista e do processo de transformação vivido nos últimos anos, com a chegada na presidência de Evo Morales.

Negro José lançou, em 2011, a primeira edição de seu Pan Comido (Pão Comido), livro que relata a operação de resgate dos três combatentes sobreviventes da campanha guerrilheira de Nancahuazú, em que caiu o Comandante Che Guevara, covardemente assassinado na sequência.
Os “guerrilheiros sobreviventes de Che” resgatados nesta operação foram os cubanos Harry Tamayo Villegas (Pombo), Leonardo Tamayo Núñez (Urbano) y Daniel Alarcón Ramírez (Benigno). O responsável político pela ação foi Negro José. Perguntamos a ele por que o lançamento do livro, que é o registro em primeira pessoa da epopeia vivida em 1968, demorou tanto. “Tinha responsabilidade com a segurança dos companheiros que estavam vivos. Além disso, todo o acontecido me parecia ser uma coisa banal, uma questão como outra qualquer”, esclarece José sobre a postura que assumiu durante décadas.
Negro José no encontro com a equipe do ComunicaSul, em La Paz
“Passados mais de 40 anos do ocorrido, me vi obrigado a responder a algumas falsificações históricas”, completa. Um dos ex-guerrilheiros, de acordo com Negro José, apresenta suas aventuras como se ele mesmo fosse uma espécie de Rambo. É contra este tipo de relato que a voz do veterano combatente se levanta em Pan Comido.
Negro José viu-se diante de um câncer. Deprimido, doente, passou a relatar o vivido, que foi registrado pelos amigos. Vencido o câncer, inicia-se a batalha para a obtenção de recursos para a publicação. Num primeiro momento, imagina-se uma campanha entre os amigos militantes. Este não é o caminho percorrido. O vice-presidente boliviano, Álvaro Garcia Linera, assume o compromisso de financiar o livro, que chega às livrarias com preço popular (Bs 50,00, que correspondem a pouco mais de R$ 15,00).

PAN COMIDO

O título da obra, Pan Comidoé uma expressão que tem mais ou menos o mesmo significado do nosso “mamão com açúcar”, ou seja, missão com baixo nível de dificuldade. Passados os anos, Negro José já não avalia que a tarefa tenha sido assim tão simples. Mas de onde saiu este título?
Numa reunião do Partido Comunista Boliviano, em meio a um ambiente tenso diante da complexidade do momento histórico vivido, os dirigentes debatiam sobre como proteger e tirar da Bolívia os guerrilheiros sobreviventes. “Era um segredo guardado a poucas vozes, que eram cinco e estavam na cidade”, relata-nos José. O autor se intromete numa conversa dos dirigentes e afirma que o tema é “pan comido”. Surpresos, os companheiros o interpelam sobre “como faríamos isso?”. “E, sem maiores detalhes, lhes respondi – pela fronteira com o Chile”.
Algum tempo depois, José é chamado para um encontro com um dos dirigentes do PCB. “Sem maiores explicações, o dirigente respondeu que me chamaram para cumprir uma tarefa muito importante para o Partido e, particularmente, perigosa, em que se poderia perder a vida”, “estive pensando naquelas palavras que disse na conversa com os companheiros, aquela do pão comido. Respondi que sim, que como militante do Partido aceitava a tarefa com todos os riscos que implicava”.
E assim foi feito. Com erros, acertos, sofrimento, alguns mistérios não respondidos, uma certa dose de sorte e, ao final,  com êxito.
“O exército boliviano mobilizou todas as suas forças para a região de santa Cruz. Jamais imaginavam que íamos aparecer tão longe. Foi heroico. Homens que viviam à beira-mar caminhando pelo altiplano”. “Minha tarefa era entregar os companheiros em segurança na fronteira do Chile. Chegamos lá e nosso contato não apareceu, possivelmente por causa da chuva. Mas foi esta mesma chuva que impediu que os paraquedistas bolivianos pudessem aterrissar”, relata-nos o autor de Pan Comido.

O APOIO DE ALLENDE

“O Governo chileno não nos deu asilo, permitiu-nos passar pelo seu território. Saímos pela Ilha de Páscoa, com o apoio e a presença do então senador Salvador Allende, que garantiu nossa segurança e nos acompanhou. Fomos para o Taiti, onde o embaixador cubano na França nos recebeu. De lá, para Paris, onde chegamos num aeroporto e entramos em outro, sem nem poder colocar os pés no chão. O governo francês permitiu ao avião que nos levou permanecer no solo por uma hora. E tem falsificador que diz que fomos recebidos por Charles de Gaulle!”, resgata José. Seu relato se ajusta à sua casa, a seu estilo de vida, à sua fala: simplicidade, integridade, profundo amor à Humanidade e sem concessões à vaidade. “A solidariedade e o compromisso de Allende foi o que garantiu nossas vidas”, registra o militante.
Felipe, Lidyane, Monica e Leonardo com Negro José
“Chegamos a Praga, depois Moscou, Musmarque - no Polo Norte - num voo, sem escalas, até Havana”. “Chegamos à ilha e eu, por acaso, fui o primeiro a sair da aeronave. Topei com o Comandante em Chefe, que me deu um abraço”. “Para mim, este é o momento mais significativo de minha vida. Significa que todo sacrifício foi coroado neste encontro. Não quero mais nada, me sinto realizado em minhas aspirações”, afirma o velho comunista.
Estar realizado não significa ter ficado congelado no tempo passado. O tempo de Negro José é o atual, está tomado de questões, atualizadíssimo a respeito de cada uma delas. “Há espaço para revoluções, no sentido clássico, em nossa América Latina?”, “que meios de produção temos criado para substituir a relação de mercado consumidor de bens produzidos pelo império?”, “como andam os debates e as lutas a respeito de nossa segurança alimentar?”, “vamos nos conformar em diminuir a distância entre os mais ricos e os mais pobres?” são alguns dos motes das lúcidas elucubrações do militante e intelectual.
Sua lucidez, a plena consciência dos limites que a idade impõe a seu corpo, sua cultura (no sentido mais acadêmico do termo) impressionam. Saímos da entrevista tocados, emocionados, certos de que tivemos o privilégio de ouvir e estar com um daqueles humanos que fazem História, da estirpe de Fidel, de Arafat, de Che. Profundamente comprometido com a humanidade, fiel a seus princípios, e nada mais.

Aguilar, Efrain Quicanez. Pan Comido: memoria de la operacion rescate de los guerrilheiros sobrevivientes del Che. La Paz: Editorial Mava, 2011.