sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Bolívia: “Aqueles que roubavam nossas terras não vão voltar”

“Sou uma árvore e o meu dever é proteger meus frutos. Mataram meus filhos, a meus netos não matarão. É meu dever brigar”, declarou Brígida Bilca, vendedora de empanadas.

Por Mônica Fonseca Severo, de La Paz
Para compreender o que se passa no vizinho andino, nossa equipe conversou com diversos personagens, em distintos momentos de nossa estadia na Bolívia. A despeito da dificuldade de diálogo, visto que o primeiro idioma da maioria da população não é o espanhol, a vontade de comunicar-se sempre falou mais alto.

Brígida Bilca, 55 anos, vendedora ambulante de empanadas, explicou porque, a seu ver, Evo Morales será reeleito neste domingo, 12 de outubro. “Evo descende dos homens de pedra, por isso é garantido para o mundo. Eu também sou descendente dos homens de pedra e, por isso, não posso duvidar dele. Antes dele, eram os padres e os brancos que mandavam,  faziam um irmão matar o outro. Evo nos salvou deste massacre”.  Homens de pedra é a tradução para o espanhol da expressão em aymara que designa os descendentes da civilização Tiahuanaco, provavelmente a mais antiga do mundo. Brígida ressalta a identificação cultural do presidente com a maioria da população, já que 80% dos bolivianos se identificam como aymaras, quéchuas ou guaranis. Com relação à expressão ‘irmão que mata irmão’, Brígida se refere a confrontos entre populares e forças armadas, constituída por bolivianos.

“Agora, somos um por todos e todos por um”, prossegue, muito emocionada, a vendedora de empanadas. “Mesmo se morrermos de fome não vamos mais trocar de estrutura. Sou uma árvore, meu dever é proteger meu fruto. A meus filhos mataram, a meus netos não matarão. É meu dever brigar”, declarou Brígida. “Aqueles que roubavam nossa terras não vão voltar”, finalizou.

Rute Ribas, de 38 anos, moradora de El Alto, relatou que “antes de Evo, só a alta sociedade podia ter senadores e deputados. Só os ricos podiam mandar. Agora, nossa candidata à senadora é representante dos panificadores, ela também fazia pão. Podemos escolher uma professora, uma pessoa simples pra ser senadora, não precisa ter dinheiro”.  “Pra um senador ser a voz do povo ele precisa saber como vivemos de verdade, conhecer os problemas, saber como é a vida. Eu apoio esta mudança, pois quero que quem decida saiba como nos representar”, esclareceu Rute.

Jovens bolivianas explicaram por que apoiam o governo do país
Conversamos com três jovens amigas que estavam no ato de encerramento da campanha de Evo Morales, em El Alto.  Carla Flores (de blusa azul), 21 anos, afirmou que “este é o único político que levou a Bolívia adiante, que aprendeu a ler as pessoas mais necessitadas”. Para Virgínia Calle, 22 anos (no centro), “este é o único presidente indígena, ele pensa no bem-estar do povo. Espero que ele ganhe para que os jovens e as crianças tenham um bom futuro”. Noêmia Mamani, 21 anos (de óculos), ressaltou que “com este presidente a economia cresceu, a Bolívia se sobressaiu pela primeira vez. Temos o teleférico como meio de transporte e a vida do boliviano está melhor”.


Antonio Candia, de 46 anos, veio caminhando com outras 30 pessoas de sua comunidade para participar do ato de encerramento da campanha presidencial do candidato do MAS – Movimiento Al Socialismo. O grupo reside em El Campo, na 7° Seção, a mais de 12 km de distância do local do evento. “Todas as autoridades do municípios, as bartolinas (integrantes da organização de mulheres Bartolina Sisa), estão aqui pra ajudar nosso irmão Evo. Ele auxiliou as comunidades, se lembra das províncias, não pensa só na cidade”. “Antes, não podíamos comprar nossa casa, agora o governo está ajudando. A gente originária, das províncias, apoia Evo”, afirmou Josefina Leon, 36 anos, também do município de Antonio.

Angela Aroquipa, 26 anos, recém-formada em psicologia, “crê nas mudanças que acontecem após séculos de opressão de nossa raça e de nossa cultura”. “Antes, a classe alta dirigia a vida do país. Agora, as organizações sociais e os sindicatos também mandam. Este projeto vai ao encontro da minha ideologia, da minha consciência social, da minha cultura”, complementou Angela.
 “Me formei como psicóloga e vou sofrer menos discriminação que antes, terei mais chances de encontrar trabalho pois diminuiu o racismo. Agora temos mais oportunidades de nos formar, encontrar trabalho e melhorar nossa qualidade de vida”, continuou a  jovem. “Por causa dos planos de alfabetização do governo, a gente mais humilde está aprendendo a ler. Isso é um grande avanço. As pessoas que sabem ler não são tão enganadas”, postulou a psicóloga. Comparando este com os governos anteriores, Angela afirmou que  “antes queriam vender-nos ao exterior e agora temos mudanças na saúde, na educação e nossa a vida melhorou”.