quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Encontros ComunicaSul: “A questão da comunicação é uma longa jornada”



O segundo encontro ComunicaSul aconteceu na última quinta-feira (28) no Barão de Itararé, e debateu o modelo de comunicação no continente sul-americano.

O encontro contou com a presença de Leonardo Severo, jornalista da Hora do Povo da CUT e autor dos livros “Latifúndio Midiota” e “Bolívia nas ruas e urnas contra o imperialismo”; Gustavo Codas, jornalista e economista paraguaio, e consultor da Fundação Perseu Abramo; Javiera Olivares, presidente nacional do Colégio de Periodistas do Chile; e Renata Mielli, jornalista, colaboradora do ComunicaSul e do Barão de Itararé.

                                                                                                   Por Dandara Lima* 

A jornalista Javiera Olivares abriu o encontro falando sobre o modelo de comunicação no Chile. Como ela estava em Santiago, sua participação aconteceu através do Skype. Ela é militante do Partido Comunista do Chile e atual presidenta nacional do Colégio de Periodistas. Ela contou que o modelo de comunicação chileno é semelhante ao brasileiro, um grande monopólio com viés político à direita. Os principais objetivos da sua gestão é a luta por uma nova Constituição para o direito de informação e por uma nova legislação de comunicação no Chile.

Leonardo Severo falou sobre a sua reportagem que deu origem ao livro “Bolívia nas ruas e urnas contra o imperialismo” e sua relação com o ComunicaSul. O livro traz uma sequência de matérias publicadas, entre outros veículos, no Portal do Mundo do Trabalho (CUT) e no jornal Hora do Povo.



Ele acompanhou a luta dos movimentos sociais nas ruas de Tarija, província da “Meia Lua”, e na capital, La Paz, onde ele entrevistou ministros e autoridades. A reportagem mostra a trajetória do governo de Evo Morales, com a nacionalização do petróleo e do gás, a aceleração e aprofundamento da reforma agrária, os investimentos na saúde e na educação, que nesse ano transformaram a Bolívia em um país livre de analfabetismo. O livro faz um contraponto ao que foi veiculado na grande mídia na época, e mostra o processo de desinformação por parte desses grandes veículos.

Ao falar sobre sua experiência com o ComunicaSul, Leonardo defendeu a intensificação da produção de conteúdo do blog, explorando mais as novas tecnologias e formas de comunicação, e também, a importância de trazer o debate da democratização da mídia para dentro das universidades.

Renata Mielli faz parte da executiva do Fórum Nacional pela Democratização da Mídia e falou sobre a sua cobertura das eleições na Venezuela. Ela começou enfatizando que a imprensa progressista precisa produzir o próprio conteúdo para conseguir fazer o contraponto aos grandes veículos.

“A gente vive muito de análise e reprodução de conteúdo dos grandes veículos com algum comentário. Se a gente quiser combater de alguma maneira e fazer a contra informação, nós precisamos produzir o nosso conteúdo, fazer a nossa narrativa dos fatos, senão a gente não consegue furar o bloqueio”, declara Renata.

Ela contou como foi a cobertura das eleições em que Hugo Chávez foi reeleito presidente em 2012. O blog ComunicaSul foi criado 10 dias antes da equipe viajar para a Venezuela, quando eles voltaram o blog já tinha atingido 12 mil acessos. O conteúdo publicado no blog foi reproduzido por vários outros veículos. Ela destaca que o que fez a diferença na cobertura foram as reportagens em vídeo.

Em relação a luta pela democratização da comunicação no Brasil, Renata lembrou a fala de Javiera, ressaltando as semelhanças do modelo de comunicação do Brasil e do Chile, um monopólio privado e comercial. Segundo ela, mesmo a internet sendo um meio alternativo que facilita a contra informação, são os portais dos grandes veículos que recebem mais acesso, questão semelhante a que foi levantada pelo jornalista Nilton Viana no encontro passado.




“A questão da comunicação é uma longa jornada”, disse Gustavo Codas ao iniciar sua fala. Segundo ele, Juan Domingo Peron foi o primeiro a defender um modelo de comunicação autônomo, quando foi presidente da Argentina na década de 40-50, devido ao absurdo que era ouvir notícias sobre o seu país através da UPI (United Press International). Ele defendia a criação de uma agência de notícias da América Latina.

Gustavo ressaltou que essa discussão sobre a criação do próprio conteúdo tem mais de 60 anos. Para ele a atual situação política e tecnológica permite que isso seja possível, mas precisa existir uma integração entre os jornalistas da América Latina. Ele criticou a postura dos militantes de esquerda que usam os veículos da burguesia, como André Singer, Vladimir Safatle e Guilherme Boulos, que são colunistas do jornal Folha de S. Paulo, pois isso dá legitimidade ao jornal. Ele criticou também a falta de apoio que o governo brasileiro dá aos veículos públicos e a imprensa progressista.

Em relação ao Paraguai, ele contou que a “opinião publicada” é dominada por dois grupos econômicos que defendem interesses empresariais. Os principais veículos de comunicação do Paraguai surgiram no período da ditadura.

Ele também comentou a atual situação política no Paraguai, onde a mídia esconde o processo de entrega dos bens públicos, atacando a classe política produzindo escândalos de amantes e parentes em cargos públicos. Essa situação é uma forma de manter a classe política subserviente aos interesses econômicos do governo Cartes. A questão do Paraguai e do governo Cartes também foi lembrada pela jornalista Mariana Serafini no encontro passado.

O próximo encontro será no dia 04/09 com a presença de Marina Terra, jornalista do Opera Mundi, e José Reinaldo, editor do Portal Vermelho.

*Com colaboração de Thiago Cassis