sexta-feira, 22 de agosto de 2014

“Quando você acredita em uma história, você tem que escrever”


Começou ontem no Barão de Itararé São Paulo o Encontros ComunicaSul, uma série de quatro encontros que visam debater os processos de democratização da comunicação no continente sul-americano, promovidos pelo ComunicaSul – Coletivo de Comunicação Colaborativa.

Por Dandara Lima

O primeiro encontro contou com a presença de Nilton Viana, editor-chefe do jornal Brasil de Fato, a repórter do Vermelho e colunista do site da UJS, Mariana Serafini, e o jornalista da Revista Brasileiros e vencedor do Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo Investigativo de 2013, Wagner William.


Nilton Viana: "Governos têm dificuldade para romper com o cerco a estrutura midiática".
Nilton traçou um panorama da comunicação na América do Sul e falou sobre os desafios dos veículos de comunicação de esquerda, que apesar do Brasil ter um governo progressista há 12 anos, ainda não conseguiu colocar em pauta a questão da comunicação. No Brasil, se antes o censor era o Estado, hoje o censor é o capital, os novos veículos e os que arriscam um novo modelo de jornalismo esbarram em problemas financeiros para se manter, enquanto os oligopólios esbanjam verbas públicas. Mesmo a internet sendo uma via alternativa, são os portais dos grandes veículos que recebem mais acessos.

O massacre de Curuguaty

Mariana contou sobre suas experiências na cobertura de eventos recentes no Paraguai, como as últimas eleições do país e a busca pela verdade acerca do massacre de Curuguaty. Ela morava em Foz do Iguaçu na época e a história de Curuguaty chamou sua atenção, ela foi por conta própria para o Paraguai fazer o contraponto da cobertura que está sendo vinculada.
"Quem se importa com o Paraguai, afinal?", questiona Mariana Serafini.
Curuguaty era um assentamento sem terra de camponeses. No dia 15 de junho de 2012 cerca de 100 famílias foram desalojadas com apoio de 300 policiais. No  massacre morreram 11 camponeses e 6 policiais, e líderes camponeses foram presos. O massacre foi usado como desculpa para o golpe que tirou o presidente Fernando Lugo do poder.

“Nessa época eu tinha 22 anos, estava começando a minha carreira de jornalista. O Paraguai é um país extremamente machista, muito mais do que aqui, então eu tinha muitos desafios para enfrentar e para conquistar a confiança dos paraguaios, principalmente dos camponeses, que em alguns casos são pessoas muito simples que se quer falam espanhol, só falam guarani”, declara Mariana.

Na época ela conversou com o presidente deposto Fernando Lugo e o seu chanceler, Jorge Lara Castro. O chanceler defende que o massacre de Curuguaty foi intervenção norte-americana, todos os policiais mortos foram atingidos com tiros certeiros ou na cabeça ou com armas capazes de perfurar o colete a prova de balas. A investigação paralela da coordenadoria de Direitos Humanos do Paraguai mostrou que as armas dos camponeses não chegaram a ser usadas.

Durante o governo Lugo o Paraguai estava se afastando do governo dos Estados Unidos e se aproximando dos governos progressistas da América Latina, e começando a mexer no processo da Reforma Agrária. No Paraguai 80% das terras pertencem a 2% da população.

Mariana era repórter freelancer e quando voltou ao Brasil continuou focada na cobertura na situação do Paraguai, e conseguiu espaços em veículos progressistas para publicar suas matérias.

O Paraguai passou a enfrentar uma série de protestos. Cinco mil pessoas foram às ruas e em um ato simbólico plantaram uma árvore para cada paraguaio assassinado e no local exato onde eles morreram, inclusive os policiais. O povo paraguaio tem uma relação muito próxima com a terra, eles plantaram árvores nos locais da morte para que novas vidas florescessem ali.

Os camponeses relataram para Mariana que a lutas deles vale à pena porque em toda a América Latina existem processos de resistência, o que eles estão fazendo no Paraguai faz parte da construção de uma América Latina soberana e socialista. “Foi a partir desse dia que eu percebi que a única coisa que eu podia fazer era contar essa história no Brasil, e desde então eu peguei essa causa pra mim”, afirma Mariana.

De acordo com ela, as pessoas no Paraguai acreditam que o atual presidente esteve envolvido em todo o processo do massacre de Curuguaty. A construção da imagem dele na mídia  começou logo após o massacre. Horácio Cartes é um empresário bem sucedido em vários ramos no Paraguai, que nunca tinha votado antes da eleição que ele foi eleito. Ele tinha se filiado recentemente no Partido Colorado, e ele precisou comprar apoio no partido para conseguir se candidatar e se eleger. Foi a maior compra de votos da história do país, o voto não é obrigatório e os paraguaios não tem confiança alguma no Estado.

A imprensa paraguaia trata os camponeses de Curuguaty como ladrões de terra, existe apenas um portal de oposição para fazer um contraponto. Mas a situação no Paraguai chegou a um ponto que nem a imprensa consegue esconder mais. Em um ano de governo de Horácio Cartes o Paraguai passou por um processo de militarização, foram assassinadas mais sete lideranças camponesas, os salários dos servidores públicos foram congelados, e foi aprovada a Lei de Aliança Público Privado, que entregou os bens públicos do país.

Quando ele aprovou a Lei de Aliança Público Privada tinham 100 mil pessoas na rua contra essa lei. Isso levou uma desestabilização do presidente até mesmo dentro do próprio partido. Estourou uma série de protestos populares e os paraguaios fizeram a maior greve geral dos últimos anos.

“Eu enquanto repórter acho que a minha função é contar essa história no Brasil e dizer que vale a pena. O Paraguai é um país muito pequeno, mas muito expressivo na América Latina. O processo de resistência é muito importante para o momento que a gente vive na América Latina. Enquanto jornalista o que eu posso dizer é que quando você acredita em uma história, você tem que escrever. Eu posso não estar mudando o mundo, mas com certeza estou escrevendo uma história que está transformando a América Latina num continente soberano”, declara Mariana.

“Essa história ainda não está contada, o Brasil foi criador da Operação Condor”

Wagner William encerrou a mesa do encontro falando sobre os bastidores de sua matéria premiada que investigou a Operação Condor. Ele é autor da reportagem “O primeiro voo do Condor”, publicada em dezembro de 2012 na Revista Brasileiros e recebeu o prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo Investigativo em 2013.


Wagner William: "Quando peguei o documento, já sabia que daria uma grande história"
“Ninguém sabe ao certo ainda o que foi a Operação Condor. O que se tinha até agora, até o começo de 2012, era que novembro de 1975 o coronel Manuel Contreras havia feito uma reunião com vários líderes das ditaduras que dominavam a América do Sul (Chile, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai) e assinado um tratado de cooperação entre eles, e o Brasil estava de observador. Em 75 o Brasil já tinha dizimado qualquer movimento contra a ditadura. Até então, acreditava-se que a Operação Condor havia começado em 75”, afirma Wagner.

A Operação Condor foi uma colaboração clandestina entre os países do Cone Sul, foi o fim da soberania diplomática entre fronteiras, onde se tinha total liberdade de ação para capturar, seqüestrar, torturar e assassinar fugitivos políticos e exilados.

A reportagem de Wagner traz evidências que essa operação já existia em 1970. Surgiram documentos na Argentina, que ainda está sendo catalogados, que mostram o Brasil como agente ativo da Operação Condor e o nosso Ministério das Relações Exteriores como um dos principais órgãos da repressão.

Wagner teve acesso ao informe secreto 388 de 19 de dezembro de 1970 do adido (espião) militar Nilo Caneppa da Silva. Esse documento relata a prisão do coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório por oficiais argentinos, com apoio de uruguaios, seguindo orientações do governo brasileiro.

Em 1965 o coronel Jefferson estava com João Goulart no Uruguai e tinha um plano para derrubar Castelo Branco. Ele consegue voltar para o Brasil, mas é capturado, preso e torturado. Ele foi o primeiro militar a ser torturado por militares no pós-64. Em 1986 ele consegue escapar,  volta para o Uruguai e continua envolvido com a resistência.

Em 1970 ele ia para o Chile se encontrar com Salvador Allende, mas foi capturado em Buenos Aires e brutalmente torturado novamente. O coronel relatou tudo no seu diário, que deixou com o seu filho. O filho dele foi preso e interrogado aos 11 anos, em 1965.

A reportagem de Wagner reescreve parte da história conhecida desse período, o Brasil deixa de ser “observador” para se tornar um dos criadores e um dos atores principais da Operação Condor. “Essa diferença é fundamental, muda toda a análise sobre a década de 70 no Cone Sul. O que eu quero que fique é o seguinte: hoje quando um Amarildo é preso e desaparece é o mesmo método daquele período”, declara Wagner.

Confira a programação dos próximos encontros: