domingo, 31 de agosto de 2014

Picnic de Abutres: “guerra civil, genocídio e aroma de criminalidade”

 
 
Leonardo Wexell Severo

 

“Há apenas uma história: a história Deles contra nós,
Eles têm casas maiores que a Disneylândia, nós temos aviso de execução hipotecária.
Eles têm jatinhos particulares para ilhas particulares, nós pagamos suas dívidas de apostas com nossas pensões.
Eles têm redução de impostos, nós temos créditos de risco.
Eles têm dois candidatos nas eleições e nós devemos escolher.
Eles têm as minas de ouro, nós temos os buracos.”

O jornalista investigativo estadunidense Greg Palast descreve seu livro “Picnic de Abutres: em busca dos porcos do petróleo, piratas da energia e carnívoros da alta finança” (Editora Alta Books, 446 páginas) como “uma busca para desmascarar a Fera, a máquina monstruosa que trabalha incessantemente para tirar de Nós e dar para Eles”.
 
 
Para “Abutres – caras muito sujos que tomam nações inteiras que não pagam seus débitos de soberania no prazo – guerra civil, genocídio, epidemia, seca e a pestilência de presidentes cleptocratas são centros de lucro, oportunidades de beliscar uma carcaça econômica da qual os outros se afastariam estremecidos”. Neste momento, a “prática de ameaças, suborno e pressão política" destes parasitas se vê estimulada - e potencializada - por ações como a de Thomas Griesa contra a Argentina. “Griesa, um juiz de extrema direita, que coincide ideologicamente com Paulo Singer – o multibilionário Abutre nº 1 - não gosta minimamente do governo de esquerda da Argentina”, relata Palast.
Sobre as práticas do Abutre nº 1, que tenta a todo custo tanger o país de Cristina Kirchner ao matadouro, o autor recorda que “no meio das guerras civis do Congo, Singer pegou títulos com valor nominal de US$ 100 milhões” para especular. “Dizem que ele pagou cerca de US$ 10 milhões por eles, mas agora entrou com uma ação para receber US$ 400 milhões do Congo”, descreve.
Na obra, o jornalista aborda exemplos diversos de enfrentamento à extorsão, bem como de capitulação. “Eis a história de Goldfinger, nome real Michael Francis Sheehan, o Abutre nº 2: a nação da Zâmbia comprou alguns tratores inúteis da Romênia há décadas. Quando o mercado mundial do cobre sucumbiu, a Zâmbia foi da extrema pobreza à miséria desesperada. Se você tem 40 anos na Zâmbia, você é um cara de sorte: a expectativa de vida é de 39 anos – e está em queda devido à epidemia de Aids.
“A Romênia, também quebrada, disse ao ministério de Finanças da Zâmbia para pagar apenas US$ 4 milhões, um fragmento dos US$ 29,6 milhões devido pelos tratores. Porém, de alguma forma, Goldfinger surgiu e pagou os US$ 4 milhões para a Romênia colocar suas mãos no direito de receber os R$ 29,6 milhões da Zâmbia. Estranhamente, o governo da Zâmbia, ao invés de pagar US$ 4 milhões para a Romênia e pagar a dívida, concordou em pagar a Goldfinger quatro vezes esse valor”.
Com a informação recebida da Oxfam, Palast tratou de confirmar a armação. E comprovou com um e-mail de Goldfinger para seu parceiro de “fundo de cobertura”, em que, citando datas e valores, dizia: “o acordo será feito por motivos políticos, porque vamos dar um desconto de quaisquer coisas para a caridade favorita do presidente”.
Mas para que “a propina, o aliciamento e o suborno” pudessem prosperar, seria necessário que o sangue fluísse. Afinal, é inútil recolher uma dívida da Zâmbia ou de qualquer país “se não há nada a ser recolhido”. “Mesmo um vampiro como Goldfinger não pode sugar sangue de pedras. Mas a Zâmbia tem alguma coisa: a Aids. Cerca de 25% da população é portadora do vírus”, disse.
Como Goldfinger conseguiu a informação sigilosa da dívida com a Romênia? “Nós descobrimos que ele já trabalhou com o Banco Mundial, prestando consultoria à Zâmbia de seus problemas com a dívida. Parece que ele estava só preparando o cerco (...) O cérebro de um plano cruel, brutal, de apoderar-se de uma nação africana inteira e embolsar para si mesmo e para seus comparsas os milhões que deveriam ir para os remédios da Aids”.
GUERRA CIVIL NA LIBÉRIA
“Foi em 2002, no meio da loucura da guerra civil, com um décimo da população morta ou morrendo, que os senhores Straus e Hermann processaram o governo da Libéria na corte federal de Nova Iorque, exigindo milhões pelos títulos podres do fundo de cobertura deles, Montreux. É claro, não estava claro se havia um governo na Libéria para ser processado, Straus e Hermann gostavam assim”. Como obviamente ninguém apareceu para defender a Libéria, “o fundo abutre Montreux venceu um grande julgamento por omissão”. Enquanto o ágio cobrado se multiplicava, nas ruas da capital do país, Monróvia, “as crianças estavam por toda parte da rua, brincando como crianças. Mas como uma diferença: sem uma perna, sem um braço. Várias crianças sem os quatro membros”.
Apontando as benesses obtidas pelos países capitalistas centrais com práticas que exalam um “aroma de criminalidade”, Palast lembra que “a maior parte do poder da Organização Mundial do Comércio (OMC), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial não está apenas em suas habilidades brutais de sufocar a reserva monetária de uma nação, mas sim nos litros de conversa fiada técnico-econômico-teórica escorregadia e pretensiosa que acoberta seus tratados frios”. Então, questiona Palast, “os abutres comem as carcaças, mas quem realiza a matança?”
Infelizmente, embora consiga ir fundo nas denúncias do capital financeiro, o jornalista não fica imune de falar bobagens sobre Cuba, por exemplo, e acaba reverberando sandices sobre hipotéticas “execuções” realizadas por Fidel Castro. Algo de certa forma esperado para um autor de best-seller do The New York Times.