quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não há guerra na Palestina



por Caio Teixeira
Não há guerra na Palestina, há extermínio de pessoas como quem passa o trator sobre um formigueiro. Para que haja uma guerra, pressupõe-se que exista um mínimo equilíbrio de forças, então vejamos. O comandante da Força Aérea Israelense, Anair Eshel, afirmou em maio passado sobre o poderio bélico de Israel que “as nossas capacidades ficam em segundo lugar, perdendo apenas para os EUA, a partir de um ponto de vista ofensivo como defensivo” (1). Os palestinos não tem nem um ultra-leve. O exército de Israel possui os mais modernos armamentos como drones aéreos e terrestres, centenas de tanques com armas de última geração, navios de guerra e submarinos. Seu exército regular é formado por 176.500 militares na ativa e mais 445.000 na reserva. As informações são do site oficial das Forças de Defesa de Israel (2).

Estima-se que vivam em Gaza, um pedaço de terra do tamanho da Ilha de Santa Catarina onde fica Florianópolis, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. Contando apenas os militares da ativa, são mais ou menos um soldado para cada 9 palestinos, incluindo todas as mulheres crianças e idosos, que vivem numa prisão a céu aberto como um campo de concentração. Ninguém sai nem entra sem autorização dos guardas de fronteira que submetem os palestinos às maiores humilhações. A Faixa fica na beira do mar vigiado pela marinha israelense. Ninguém passa nem de dentro pra fora nem de fora pra dentro. Do outro lado tem um muro como o de uma penitenciária de segurança máxima. Este povo prisioneiro não tem tanques nem exército. São prisioneiros em sua própria terra que era muito maior e foi invadida pelos soldados israelenses em sucessivas ações militares desde a malfadada fundação do Estado de Israel, quando os judeus ficaram com 56% da Palestina e os palestinos com apenas 44%. Em 1967, o exército israelense invadiu mais ainda, ficando com 78% do território contra 22% dos palestinos. Em 2006, mais invasões militares e os palestinos ficaram reduzidos a 13% do seu território. A reivindicação deles é pelo menos a volta das fronteiras anteriores a 1967. Alguém acha isto absurdo?
Chamar os bombardeios de Israel de guerra é cumplicidade com o genocídio e com o roubo do território palestino através de invasões militares condenadas até mesmo pela ONU. Os governos do mundo assistem inertes, limitando-se a inócuas declarações diplomáticas. Ninguém propõe um bloqueio a Israel como fazem com a Síria, ninguém propõe uma zona de exclusão aérea como fizeram na Líbia, para impedir os ataques aéreos de Israel. Ninguém propõe intervenção internacional para “proteger os civis”, como fizeram no Afeganistão e no Iraque. Ninguém acusa os governantes de Israel de ditadores sanguinários nem pedem suas cabeças numa bandeja como fizeram com Saddam, Kadafi, Bin Laden ou Bashar al-Assad.
Nada disso acontece porque Israel não é um pais isolado, cujos governantes gostam de cometer atrocidades. É o país no mundo que mais recebe dinheiro dos EUA. Não recebe empréstimo, recebe doações milionárias, chamadas de ajuda, para sustentar a matança. Todos os aviões, a maioria dos tanques e demais armamentos de Israel são fabricados nos e fornecidos pelos EUA. Os restantes são fabricados em Israel em sistema de cooperação tecnológica com empresas estadunidenses e benção dos governos, sejam democratas ou republicanos. Israel é um pedaço dos EUA plantado no meio do Oriente Médio para defender seus interesses estratégicos de controle do petróleo com a grande vantagem de não precisar se submeter às leis, ao Congresso nem à opinião pública do seu país. Mas não há petróleo na Palestina! Não, não há, mas há a localização estratégica para atacar qualquer pais que sonhe em atrapalhar os planos dos EUA de controle da área. Sites militaristas israelenses falam abertamente de planos táticos para atacar Irã, por exemplo.
O jornalista e economista estadunidense Paul Craig Roberts, que entre outras atividades foi editor do Wall Street Journal, e economista do governo Reagan, escreveu esta semana que “como recompensa pela política de genocídio, o governo Obama já está repassando, imediatamente, $429 milhões do dinheiro dos contribuintes norte-americanos, para Israel: é o pagamento pelo mais recente massacre”. Antes que alguém pense que a denúncia é uma tentativa de republicanos atacarem democratas, convém ler outro trecho do artigo: “a Câmara e o Senado já aprovaram resoluções de apoio ao morticínio de palestinos por Israel. Dois Republicanos – o desprezível Lindsey Graham e o frustrante Rand Paul – e dois Democratas – Bob Menendez e Ben Cardin – apresentaram projeto de Resolução ao Senado de apoio ao assassinato premeditado de mulheres e crianças palestinas, por Israel.
A maioria dos políticos e os governos estadunidenses tem banqueiros, mega-investidores e grandes empresários judeus como principais financiadores de suas campanhas.
NÃO EXISTEM MOTIVOS RELIGIOSOS PARA GUERRA
As razões das desavenças entre judeus e palestinos não tem nada a ver com religião como repetem insistentemente os meios de comunicação empresariais, chamados apropriadamente por Paul Craig de “press-titutas”.
As causas dos ataques de Israel e da resistência palestina não estão perdidas em páginas empoeiradas do velho testamento. Judeus e muçulmanos são árabes, filhos de uma mesma terra e com uma cultura comum, com exceção da religião. Na maioria dos países do mundo de hoje católicos, protestantes, budistas ou muçulmanos convivem em harmonia. O Brasil é exemplo disso. Circula na internet um vídeo de uma manifestação há poucos dias em Nova Iorque em defesa da paz na Palestina e pelo fim do Estado de Israel (3). A manifestação foi promovida por judeus ortodoxos! O religioso judeu que aparece conduzindo o protesto, afirma em defesa de tais bandeiras que judeus e muçulmanos conviviam em paz na Palestina até 1948, quando foi criado o Estado de Israel. Ele conta que as mães muçulmanas cuidavam das crianças judias quando seus pais se ausentavam para participar das cerimônias religiosas judaicas, e as mães judias cuidavam das crianças muçulmanas quando seus pais saiam para as suas cerimônias. Que exemplo mais eloquente de convivência respeitosa entre praticantes de religiões diferentes! Muçulmanos não combatem os EUA e Israel porque querem impor o Islã ao mundo. Ao contrário, eles foram vítimas dessa prática de impor religiões a força por parte de países católicos ocidentais durante as cruzadas. Os muçulmanos e árabes combatem os EUA para defender suas terras, seus países e sua cultura, violentamente atacadas, saqueadas e dominadas pelo Império pós-moderno. Os EUA mantém Israel armado até os dentes para garantir petróleo barato em fluxo permanente do Oriente Médio. E o fazem a qualquer custo, incluindo o extermínio, se necessário de povos inteiros quando estes insistem em resistir. Não há nada de religioso nisso.
Imaginem se os EUA, a partir de suas dezenas de bases militares na Colômbia resolvesse invadir a Amazônia brasileira para controlar a água, abundante em nosso país e que cada vez se torna mais valiosa no mundo diante da degradação do meio ambiente. Eles entram no nosso país, cercam a Amazônia com soldados e bases militares, e iniciam um processo de colonização com cidadãos estadunidenses. O que deveríamos fazer? Temos o direito de resistir e tentar expulsar os invasores? Ou não temos este direito? Se começarmos a atacá-los com as poucas armas que temos, em forma de guerrilha, pois é impossível bater de frente sem sermos esmagados, isto dará direito legítimo a eles de revidarem com toda a sua força? Colocarmos como meta prioritária expulsar os invasores seria um ato hostil, desumano ou reprovável? É exatamente isto o que acontece na Palestina. Israel invadiu, cercou, ocupou e instalou colonos judeus nas terras roubadas dos palestinos. Não estamos falando do território do Estado de Israel criado em 1948. Estamos falando dos territórios palestinos invadidos e ocupados a força depois de 1967, sem aval da ONU e com sua condenação. Nada disso se fala na imprensa-empresa a serviço do Império. Eu poderia ter escrito o que transcrevo a seguir, mas talvez fosse “acusado” de “esquerdista”, “comprometido”, “comunista” ou quem sabe deanão diplomático”, então uso as palavras do próprio insuspeito estadunidense Paul Craig Roberts, que esclarece: “todas as press-titutas/press-titutos continuam a dizer sempre a mesma coisa. O mais provável é que essa opinião única e uniforme apenas reflita o treinamento pavloviano da imprensa-empresa ocidental, que sempre, automaticamente, se alinha com Washington. Nenhuma ‘fonte’ quer ser criticada por ‘antiamericanismo’ ou quer ver-se isolada da opinião geral, a única que se ouve, a única que se admite, a única que não pode ser contestada, sob pena de o ‘especialista’ receber ‘nota vermelha’ no boletim.
Então, quando os meios de comunicação falam em guerra, atribuindo culpa recíproca aos dois lados, invasor e invadido, para justificar a matança promovida por Israel como “defesa” dos foguetes do Hammas, estão omitindo os fatos, estão omitindo a verdade, estão negando a legitimidade dos palestinos defenderem seu território. Estão ajudando a convencer leitores e expectadores que os territórios ocupados a força por Israel não devem ser contestados nem devolvidos, que os palestinos não tem direito de defenderem a terra que lhes foi tomada e lutar pela sua devolução. Estão tentando convencê-lo que a culpa pela matança é do povo que está sendo assassinado. Estão escondendo que o objetivo de Israel é expulsar todos os palestinos da faixa de Gaza e se apropriarem também de mais esse território ainda que tenham que matar todos. E depois de Gaza avançarão para os outros guetos em que foi transformada a Palestina, já cercados e isolados, prontos para serem covardemente invadidos.
Protejam-se, portanto, do falso jornalismo e ajudemos todos a defender a causa palestina, antes que precisemos defender o nosso território.