segunda-feira, 30 de junho de 2014

Futebol, política e democracia em três períodos na Argentina


Por Thiago Cassis*
1978: Vencer ou vencer
Quando o golpe militar se deu na Argentina, em 1976, a Copa do Mundo de 1978 já estava confirmada para o país. Ou seja, a organização do evento não foi obra da ditadura. Mas sem dúvida nenhuma o regime apropriou-se do torneio para, dentro do que acreditavam, obter apoio da população para suas ações.

Eis três objetivos da ditadura argentina naquele período: A vitória na Copa de 78 no futebol, título até então inédito para os argentinos; fazer retroceder a decisão judicial, através de conflito armado, que atribuía a posse do Canal de Beagle** para o Chile; e expulsar os ingleses das Ilhas Malvinas.
A Copa do Mundo de 1978 seria utilizada, no plano dos militares, para abafar o Estado de terror imposto por eles. As notícias de torturas e perseguições seriam sufocadas por gritos de gols nos estádios. A unidade dos 25 milhões de argentinos em torno de sua seleção era o objetivo do regime.
Após uma primeira fase apenas mediana, os argentinos entraram na etapa decisiva da competição e tinham pela frente um de seus maiores rivais, o Brasil.
Quando estiveram frente a frente, Brasil e Argentina, proporcionaram uma verdadeira batalha de nervos recheada de lances violentos, mas ficaram no 0 x 0. Na última rodada daquela fase, que definiria um finalista do Mundial, no dia 21 de Junho de 1978, os argentinos entraram em campo na cidade de Mendoza tendo que vencer os peruanos por no mínimo 4 gols de diferença para alcançarem a final do torneio. O Brasil levava vantagem no saldo de gols.
Vale lembrar que o então presidente da FIFA, João Havelange, tinha relação próxima com a ditadura argentina. E que todos os investimentos feitos pelo governo local em infraestrutura não haviam sido realizados em vão.
A seleção argentina não fez apenas os 4 gols necessários, fez 6. Bateu os peruanos por 6 a 0. Talvez a partida mais discutida da história das Copas, pela suposta falta de vontade dos atletas peruanos, que teriam sido forçados a entregar o jogo para os argentinos. A noite ainda contou com a explosão de uma bomba na casa do Secretário da Fazenda da Nação, Juan Alemann, que se opunha à organização da Copa no país, no momento do quarto gol.
Vencer a Holanda na final e conquistar a taça era o único desfecho possível para os militares. A comemoração nos balcões da Casa Rosada, cercada por milhares de pessoas aplaudindo o General Videla era o objetivo desde quando o regime levou adiante a organização da Copa.

O desgaste do regime e a “mão de Deus”
Em abril de 1982 o desgastado regime argentino, agora sob o comando do General Leopoldo Galtieri decide levar a cabo o conflito que ficou conhecido como a Guerra das Malvinas. A intenção era desviar o foco da profunda crise econômica que o país atravessava através do enaltecimento do sentimento de nacionalismo dos argentinos, que seriam aflorados pelo combate.
Para a ditadura os resultados foram catastróficos. Em 14 de junho, dois meses depois do início do conflito e um dia depois da estreia da Argentina na Copa do Mundo de 82, os ingleses já tinham retomado a posse das Malvinas e a ditadura argentina teve selado o seu fim.
Com a morte de aproximadamente 650 argentinos, jovens soldados mal preparados e mal equipados, que tombaram lutando contra um exército inglês muito superior, a opinião publica já não aceitava mais a ditadura. A manutenção do regime tornou-se insustentável.
Em 1983 a democracia era reestabelecida no país com a eleição do presidente Raul Alfonsín.
E nesse momento o futebol mais uma vez cruza a história política da Argentina.
Em 1986, a seleção argentina vai ao México disputar o Mundial. Buscando se recuperar do fracasso da Copa de 1982 e, acima de tudo, elevar a auto estima de milhões de argentinos. A equipe tinha em Diego Armando Maradona sua grande esperança de voltar a levantar a taça e apagar a imagem da possível manipulação que havia ofuscado a conquista de 1978 perante à opinião pública internacional.
Após uma boa primeira fase, os argentinos batem os uruguaios nas oitavas de final e avançam para o tão esperado confronto contra os ingleses. Seria o reencontro após o sangrento episódio das Malvinas. Em campo, ao lado de Diego Maradona e seus companheiros, a memória de 650 jovens (como o próprio Maradona na época), entrava para a “guerra” contra a Inglaterra. Sem armas e sem bombas. Com chuteiras e camisas azuis os atletas foram a campo na ensolarada tarde da Cidade do México, no dia 22 de Junho de 1986, para, dessa vez em igualdade de condições, vingar na bola os compatriotas que tombaram quatro anos antes.
O primeiro tempo termina 0 a 0. Um jogo nervoso. Entradas duras por parte das duas equipes. Durante os dias que antecederam a partida a possibilidade do duelo nem mesmo terminar, por conta do ânimo exaltado dos atletas, era debatida pela imprensa mundial.
Foi quando aos seis minutos do segundo tempo, Maradona, com um sutil toque com a mão, sem que o juiz percebesse, desvia a bola para o fundo da meta inglesa. Para os argentinos, o gol não foi feito com a mão de Maradona e sim com ajuda da “mão de Deus”. Era o começo da redenção. Quando os ingleses julgavam injusta a forma como a Argentina tinha aberto o placar, apenas 3 minutos depois do primeiro gol, Maradona pega a bola no meio do campo, dribla metade do time inglês e faz um gol histórico. Talvez o mais belo gol da história das Copas. A Inglaterra ainda achou tempo para descontar, mas já era tarde. As Malvinas estavam vingadas, ao menos no campo simbólico do futebol. As lágrimas por parte de torcedores, jogadores e até mesmo de narradores argentinos que transmitiam o jogo davam a dimensão do tamanho da conquista.
A Argentina venceria a Copa de 1986 sete dias depois, batendo os alemães por 3 a 2 na grande final.

Copa para todos, a mídia democratizada: Argentina 2014
E em 2014, o que representa a Copa do Mundo para a Argentina?
Dentro das quatro linhas, a equipe luta para conquistar o tri campeonato, tendo Lionel Messi como sua grande esperança para obter este feito, 28 anos depois do último título, em 1986.
Caso a Argentina vença o torneio, o grito de campeão será anunciado por dezenas de rádios e TVs espalhadas por todo o território do país. E por quê?
Com a aprovação da Lei de Meios Audiovisuais, promulgada em 2009, pela presidenta Cristina Kirchner, e declarada constitucional em 2013, estão limitadas o número de concessões de rádios e emissoras de TV que o mesmo grupo de comunicação pode concentrar. Dessa forma o monópolio por partes das empresas que contavam com maior poder aquisitivo, simbolizado principalmente pelo grupo Clarín, foi quebrado.
Rádios de comunidades indígenas, de pequenos munícipios ou até mesmo organizações de rádios cooperativas podem transmitir as partidas do mundial.
Não apenas a própria realização da Copa no continente aponta o fortalecimento da região. Também suas leis avançadas, que embora ainda não seja o caso de todos os países sul-americanos, demonstram que vivemos um período de crescimento das forças progressistas na América do Sul.
A luta contra as grandes corporações ganha muita força com a democratização dos meios de comunicação na Argentina. As contradições de nosso continente ainda são evidentes. Mas mesmo que não levantem a taça dessa vez, cada grito de "gol da Argentina" representará uma vitória de seu povo e de sua democracia.
E levando em consideração este fato, concluímos que nem sempre quem fica com a taça é o verdadeiro vencedor.

*Thiago Cassis é jornalista e sul-americano.
**Conflito resolvido posteriormente pelo Vaticano.