domingo, 16 de março de 2014

Paraguai: Aquí se respira lucha!

Com a turnê de seu novo disco, MultiViral, no Paraguai, a banda Calle 13 colocou a questão do massacre de Curuguaty novamente na imprensa nacional e internacional ao fazer eco ao questionamento dos movimentos sociais do país: "qué pasó en Curuguaty?" (O que aconteceu em Curuguaty)?

Por Mariana Serafini, no site da UJS

No último sábado (8), a banda porto-riquenha Calle 13 realizou um show da turnê MultiViral no Paraguai. Usando camisetas que questionavam o Massacre de Curuguaty e com um discurso político provocador, Residente Calle 13 deu voz à luta campesina paraguaia que desde as eleições presidenciais em 2013 vinha perdendo espaço na imprensa internacional. Logo depois do Golpe Parlamentar que depôs o presidente eleito Fernando Lugo em 21 de junho de 2102, o mundo voltou os olhos para o Paraguai, por razões óbvias. Um presidente eleito democraticamente foi deposto em um processo que durou menos de 48 horas com apenas duas de defesa. Porém, não demorou muito para o país “voltar ao eixo” democrático, as eleições foram chamadas pelo presidente golpista Federico Franco e o atual presidente eleito, Horácio Cartes teve ampla vitória nas urnas.




Se o país voltou à democracia, não há mais porque os vizinhos interferirem nos processos políticos, e nesse caso, o Massacre de Curuguaty que derrubou 11 bravos campesinos e seis policiais em combate perdeu espaço na imprensa. A questão é que, além das mortes, ainda há 14 pessoas inocentes presas, e quase uma centena vivendo em precárias lonas à beira da estrada, nas margens de onde era o assentamento sem terra. Curuguaty está longe de ser esclarecido. Obviamente esta mudança no cenário aconteceu de forma sutil e aos poucos os militantes de Curuguaty foram se sentindo sozinhos, sem apoio das comissões internacionais que no princípio depositaram esforços na causa.
Uma atitude extremamente corajosa mudou o cenário há quase 30 dias. Cinco dos presos políticos iniciaram uma greve de fome para exigir liberdade, garantia de direito aos povos, soberania e terra. Irredutíveis, eles já deixaram claro que a greve não vai terminar enquanto não houver resposta. As famílias estão em vigília na principal praça de Assunção, capital paraguaia, e os movimentos sociais estão mobilizados. A iniciativa fez com que a luta ganhasse corpo e agilidade novamente porque a Justiça paraguaia vem travando o processo há dois anos e criando condições para que os presos políticos sejam condenados sem provas pela morte dos seis policiais, um crime que nitidamente eles não cometeram.
Presos políticos de Curuguaty
Há uma investigação paralela, feita pela Coordenadoria de Direitos Humanos do Paraguay (Codehupy), que prova: nenhuma arma dos campesinos foi disparada durante o massacre que durou cerca de seis horas. Todos os seis policiais foram mortos com tiros certeiros na cabeça, ou com balas de alto calibre capazes de transpassar o colete de proteção. A história está nitidamente mal contada pela Justiça, confirmada pelo Estado e veiculada pela imprensa.
Diante disso, os militantes que lutam por Curuguaty aproveitaram a presença da banda Calle 13 no país para dar voz à luta campesina. É sabido do comprometimento dos irmãos Residente, Visitante e PG 13 com as causas sociais latino-americanas. Um vídeo foi produzido em Marina Kue (que significa “Pertenceu à Marinha”, em guarani), assentamento sem terra onde aconteceu o massacre no município de Curuguaty, com a participação de familiares das vítimas e militantes sociais do Paraguai. Eles pediam que a banda fosse solidária com a causa e desse voz ao povo que há muito foi esquecido pelo Estado.
Usaram a mesma tática da banda de “infiltrar” informações nas redes sociais, com as hashtags #MultiViral e #Curuguaty conseguiram atingir o objetivo. Poucos dias antes de chegar ao Paraguai, René Pérez (o Residente) postou o vídeo em sua conta oficial no Twitter e aceitou o pedido de fazer o show usando camisetas com a frase “Calle 13 pregunta: Que Pasó em Curuguaty” (Calle 13 pergunta: “O que aconteceu em Curuguaty”).
De repente a luta ganha outra dimensão, a banda entra no palco no sábado a noite usando as camisetas e faz um show com cunho político comprometido. René fala sobre a violência em toda a América Latina, lamenta a morte de amigos de infância e pede um esclarecimento sobre o que aconteceu em Curuguaty. No dia seguinte isso era capa nos jornais e foi amplamente divulgado nas redes sociais: “Calle 13: Energia e protesto social”, dizia o ABC Color e “Calle 13 no Paraguai: o show da revolução”, estampou o Última Hora, os dois maiores diários do país. É como se a Calle 13 fosse o megafone que as vítimas de Curuguaty tiveram acesso para dar um único grito. Não falharam.
Na segunda-feira, logo pela manhã, a comissão responsável por Curuguaty – composta por familiares das vítimas, políticos e militantes sociais –  se reuniu com o presidente da Corte Suprema de Justiça do Paraguai, Raúl Torres Kirmser. Ele se comprometeu em dar agilidade ao processo dos presos políticos devido à urgência da questão. Afirmou que o Estado é responsável pela vida dos cinco presos em greve de fome porque estão sob custódia e anunciou que seriam transferidos do precário presídio de Tacumbú para um hospital, porque já estão com a saúde debilitada demais.
Novamente a luta entrou em evidência na imprensa. Mas a promessa não foi cumprida. Em situações precárias, dentro de um presídio sujo e sem condições mínimas de vida humana, os cinco presos políticos resistem sem ingerir nenhum tipo de alimento. Estão com a saúde debilitada, o desespero tomou conta das famílias e o Estado continua omisso. Calle 13 já foi embora, mas gritou antes de sair: “aquí se respira lucha!” e o público respondeu em coro “aquí estamos de pié!”.
Este espaço se dispõe a ser uma trincheira da luta de Curuguaty, e de todos os povos latino-americanos que buscam justiça, soberania e integração. Como diz Calle 13 em “MultiViral”: “Se a imprensa não fala, nós damos os detalhes”, não sei usar spray nos muros, minhas palavras são disparadas de outra forma e cada um tem um meio de fazer isso, nem que seja apenas contando essa história para um amigo, compartilhando no Facebook, no Twitter. De um em um, chegamos a milhares, mas em breve seremos milhões. Curuguaty resiste e não se cala. Amanhã serão 30 dias de greve de fome.
 Este vídeo foi produzido em Marina Kue, a terra mais fértil que já pisei, e um dos céus mais azuis que já vi:

Calle 13 fala sobre Curuguaty:
https://www.youtube.com/watch?v=DKGGhTyDOTk