segunda-feira, 29 de abril de 2013

Revolução Bolivariana transforma cena cultural da Venezuela

O teatro Teresa Carreño, construído nos tempos em que a Venezuela era conhecida por ter a Caracas Saudita – em alusão à abundância dos recursos do petróleo — é uma metáfora da cultura no país. Outrora proibido para o público geral, o teatro da era Chávez é cenário de atos públicos, shows gratuitos e de democratização cultural. Comunista e “cultor”, o ator Antonio Machuca é um dos militantes deste projeto de cultura revolucionária.

Por Vanessa Silva, de Caracas 

Machuca, durante ato de apoio à candidatura de Maduro no
Teresa Carreño no começo de abril
Ator desde os 15 anos, Machuca é famoso por suas participações em inúmeras novelas nos anos 1980/90, mas, ao ver seu país sacudido pela revolução comandada por Hugo Chávez, resolveu participar do processo ativamente. Sua posição política passou então a incomodar os meios privados para as quais trabalhava. Incompreendido, saiu dos estúdios e voltou para o teatro, onde começou. 

Há oito anos trabalha em um projeto pessoal batizado de “Monólogos – Conversações”, uma montagem onde o ator incita a participação do público sobre temas políticos, históricos e sociais. Em suas próprias palavras, o projeto tem como objetivo fazer com que as pessoas “se reconheçam como protagonistas da história”.

Opulento e majestoso, no coração de Caracas, o Teresa Carreño foi o cenário da entrevista concedida por Machuca ao ComunicaSul:

ComunicaSul: Chávez trabalhou muito a questão da autoestima dos venezuelanos. Qual é o impacto que isso tem para a cultura do país? Antonio Machuca: Eu venho de uma luta do Partido Comunista há anos e trabalhei muito tempo na televisão, o que me permitiu estar em um meio e perceber que era preciso mudar o lugar onde estava trabalhando. Por minha formação comunista, comecei a trabalhar com este sentido de busca da pátria. Nós começamos a nos encontrar com todos os coletivos [de cultura do país], com todas estas pessoas que estavam estimuladas pela efervescência produzida pelo Comandante há 14 anos.

Isso permitiu que nos identificássemos com este ardor que Chávez tinha. Ele desapareceu, mas ficou em uma parte do povo e sobretudo, nos cultores saudáveis. Não nos “artistas” que trabalham nos meios televisivos com a cultura superficial. Aqui nós temos um Ministério da Cultura, que agora é chavista e, por meio dele, estamos projetando a cultura revolucionária necessária para consolidar a pátria que estamos construindo.

Fale mais sobre este conceito de cultor… Eu defino da seguinte forma: o artista é o que trabalha no meio comercial, é um ser superficial, que vende um produto, que não vê sentido no que está fazendo. Já o cultor é o que conscientiza: é a arte em benefício de sua pátria. É uma diferenciação que eu faço. Me conhecem como artista, mas não quero ser reconhecido assim, quero ser reconhecido como cultor, pelo meu valor, meu sentimento, minha essência.

E estes cultores, que papel desempenham na manutenção da revolução bolivariana? São muito importantes. Os cultores são os valores autênticos da pátria que não estavam contemplados antes. Agora temos um Ministério da Cultura trabalhando em todas as regiões. Camponeses da parte mais longínqua do país e que são cultores. Geralmente são desconhecidos e agora estamos trazendo-os para este cenário conosco. Então temos esta cena mais linda do que a que é feita pelo mercado comercial.

Nossos valores internos estão sendo desenvolvidos e isso é lindo, maravilhoso, porque têm valor revolucionário, combativo. Esta é a diferença entre o ser artista e o ser cultor, que está em toda a pátria. Nós levamos [cultura] para lugares que nunca tiveram oportunidade e fazemos intercâmbio entre províncias, entre estados. Muitas vezes a cultura de um estado é totalmente diferente do outro em sons, essência, e levamos isso para toda a pátria, distribuindo nossos saberes.

Chávez trabalhou muito pela integração latino-americana. Alguns falam que o caminho para a integração real é pela via cultural. Crê que a cultura seja capaz de agregar e transformar o imaginário coletivo para nos vermos como irmãos, como iguais e não como distintos nas pequenas coisas que nos diferenciam? Estou certo que sim. A cultura é a arma mais poderosa para a transformação e é importante termos o reconhecimento de que podemos, ao menos ao nível sul-americano, ter os sete países integrados a esta forma de pensar. O império do norte se encarregara de nos dividir e isso é reforçado com o valor de nossa cultura porque ela é a arma mais consistente que temos e que por muito tempo esteve nas mãos da oligarquia. Agora estamos estendendo [este projeto] a todos os países da Alba [Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América]. Estamos com muita força, entendemos que é isso que vai nos fazer unidos, grandes. Mas não para atacar, maltratar ninguém, e sim para nos defender e nos manter em paz diante de todo o mundo. Temos que conseguir o respeito porque é isso que nos dará a paz a nível mundial.
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