quinta-feira, 18 de abril de 2013

Nicolás Maduro recebe apoio internacional e oposição perde força


Isolado, Capriles Radonski tem apoio de ONGs e dos Estados Unidos

Jonatas Campos, Caracas - Venezuela

A reunião de hoje (18) da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), com a presença das presidentas do Brasil e Argentina e dos presidentes do Uruguai, Chile e Bolívia, deve respaldar a vitória do presidente, Nicolás Maduro. O próprio Maduro estará na reunião. Amanhã (19), espera-se aqui na Venezuela, na juramentação do presidente eleito, um total de 50 lideranças, entre chefes de Estado, primeiros-ministros e chanceleres. Enquanto isso, por todo país coletivos e organizações populares continuam em alerta, assim como associações empresariais já pedem que o país siga em frente.


Mesmo diante da solicitação oficial da oposição ao CNE de recontagem dos 15 milhões votos, a tendência é que os diversos setores da sociedade venezuelana queriam a retomada imediata do cotidiano no país. Amanhã, a juramentação do presidente Maduro tornará-se uma grande mobilização popular. Ontem (17) à noite, novamente, oposicionistas batiam em panelas desde as janelas de suas casas, assim como chavistas soltavam fogos e colocavam músicas militantes.

O presidente da Federação da Indústria da Venezuela, Miguel Péreza Abad, em entrevista ao Diário El Nacional hoje, afirmou que o momento agora é de trabalhar nos "grandes temas econômicos" e expressou confiança no presidente Maduro. "No último quadrimestre, por razões óbvias, estivemos envolvidos com o tema da política, mas já é hora de retomarmos a agenda econômica", explicou. "(Maduro) Já começou a fazê-lo. Na terça-feira (ele) se reuniu com mais ou menos 70 empresários e lhes disse que se comprometia a trabalhar em conjunto pela reativação da economia. Foi uma reunião muito positiva", relatou ao El Nacional.

Seja nas ruas ou no comércio, a aparente normalidade esconde uma angústia dos venezuelanos para que a agenda cotidiana do país retorne urgentemente. “Já ocorreram as eleições, agora é trabalhar. O presidente é Maduro”, disse um dono de uma loja de bebidas, que, entretanto, fazia serveras críticas ao ex-presidente Hugo Chávez ao conversar com seu representante comercial, aparentemente favorável ao governo.

"Vivemos 14 anos em marcha, vivemos mobilizados todos os meses. A rua está mobilizada, são campanhas e campanhas. Então, ninguém vai trabalhar?", questiona Maria de Los Angeles, que é militante chavista desde o primeiro mandato do presidente. “A elite não precisa trabalhar, eles têm os dólares em Miami, nós aqui precisamos produzir, retomar nossa agenda”, diz a administradora de empresas de 28 anos.
 
Populares se aglomeram para assistir os
discursos dos deputados governistas e opositores
Na Praça Bolívar, conhecido reduto chavista, as ruas continuavam cheias como de costume. Em um toldo, ao lado da Assembleia Nacional, populares se aglomeravam em frente a uma televisão para ver os discursos dos deputados da oposição e do governo. Apesar da ameaça do presidente do legislativo, Deosdado Cabello, de proibir o pronunciamento de oposicionista que não reconheçam o presidente Maduro, ontem o debate estava acalorado. Em outro toldo, a tradicional Esquina Caliente, chavistas debatendo ou assistindo alguns vídeos, enquanto ali perto, evangélicos fazendo pregações religiosas.

A diretora geral para Ásia, Oriente Médio e Oceania do Ministério das Relações Exteriores da Venezuela, Orietta Caponi, informou ao Comunicasul que muitos dos líderes que se encontram no país em um evento de apoio ao Estado Palestino pediram oficialmente para permanecer no país até amanhã. “É o primeiro evento internacional do nosso presidente Nicolás Maduro para demonstrar todo o apoio que a Venezuela tem a causa palestina e o respeito ao Estado Palestino. Aqui temos embaixadores do Comitê da ONU para o Exercício dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestino. Os embaixadores conhecem a segurança do nosso sistema eleitoral porque observadores de seus próprios países vêm acompanhando o processo e informam que é absolutamente legítima e clara a vitória de Nicolás Maduro”, disse a funcionária da chancelaria.

O chanceler da Autoridade Palestina, Riad Malki, já confirmou que estará presente na juramentação. “Estamos esperando vários chefes de estado. Virão também delegações da China, Irã, Qatar e outros do oriente”. Espera-se também a presença do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

APOIO

Cada vez mais isolado, o candidato derrotado Henrique Capriles Radonski recebeu apoio de diversas Organizações Não-Governamentais (ONGs) venezuelanas, muitas declaradamente oposicionistas.  Elas aderiram ao pedido de recontagem dos votos em carta à sociedade emitida hoje (18) afirmando que foi "politicamente incorreta" a proclamação do presidente Nicolás Maduro e que em "um resultado tão próximo, com o acréscimo das denúncias sobre irregularidades eleitorais, era previsível que fosse solicitada a recontagem dos votos para dirimir qualquer dúvida razoável sobre o resultado".

Assinam a carta o Programa Venezuelano de Educação - Ação em Direitos Humanos (Provea), o Comitê de Familiares de Vítimas de Fevereiro e Março de 1989, a Ação Cidadã Contra a AIDS (ACCSI), a Civilis Direitos Humanos, Vicaria de Direitos Humanos de Caracas, Caritas Los Teques Justiça e Paz, o Observatório Venezuelano de Direitos Humanos da Mulher e a Ação Solidária.

Já o governo dos Estados Unidos continua destoando do restante dos países da América e das principais nações da Europa. Na última quarta-feira o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, concordou com a recontagem dos votos, dizendo que "se há enormes irregularidades" pode haver dúvidas sobre a "viabilidade do governo". Todavia, Kerry recusou-se a responder se o governo norte-americano contesta a vitória e Maduro.


Foto: Agência Brasil

Já ontem no Brasil, o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, e a embaixadora dos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas (ONU), Susan Rice, dividiram-se, em Brasília, sobre a legitimidade das eleições venezuelanas. Enquanto Patriota reforçou que a decisão de CNE deve ser respeitada, Susan Rice reafirmou a posição do Governo dos EUA de apoiar a recontagem.