quinta-feira, 11 de abril de 2013

Na Venezuela, supermercados cheios de alimentos e pessoas


por Renata Mielli, de Caracas

Supermercados lotados de pessoas e de alimentos, com um ou outro item em menor quantidade. Esta foi a realidade que a reportagem do ComunicaSul encontrou em Caracas. Muito diferente da situação de desabastecimento divulgada pela mídia internacional e pregada pelo candidato da oposição Henrique Capriles.

Foto: Jonatas Campos

“Não faltam os produtos básicos, temos de tudo”, disse Negra, uma camelô que encontramos no Mercal de Chacalito. Mercal são os supermercados estatais que vendem os produtos para a população mais pobre, com subsídios do governo.

Em Miranda, bairro de classe média alta, no supermercado privado Levebras, muita fila nos caixas e as gôndolas cheias – mas com alguns produtos em pouca quantidade, como açúcar e limitação de bandejas de carnes por pessoa. Um senhor na fila disse “não faltam produtos, o que acontece é que as pessoas vem e levam vários pacotes do mesmo produto e acaba faltando. Vem pai, mãe, irmãos, primos e levam 2, 3 pacotes. Na verdade, na minha opinião, o que acontece é uma guerra política contra o governo, que começou quando o Chávez ganhou as eleições”.


Vivendo há 8 meses na Venezuela, o brasileiro Marcelo Resende, que ocupa no país a função de representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – FAO, disse que não há planejamento econômico e alimentar no mundo que resista à especulação política.
“Eu, por exemplo, dou um depoimento pessoal. Orientado pelos meus funcionários, que disseram – Sr. Marcelo, recomendo que o senhor vá ao supermercado e compre mais para guardar em casa. Então, eu que comprava dois saquinhos de arroz por mês, comprei 10. E todos aqui também fizeram isso. E aí, falta alimento. Não há planificação, planejamento em nenhum lugar do mundo que resista há uma especulação”.

Venezuela, exemplo mundial

A FAO trabalha internacionalmente com indicadores para orientar políticas que visem erradicar a fome e para caracterizar uma situação de subnutrição. Neste rol, segundo Marcelo Resende, “a Venezuela é um dos países exemplo para o mundo em políticas e programas públicos no âmbito da segurança alimentar”.

ranking da fome da AL
“O que encanta na Venezuela foi o país ter conseguido baixar consideravelmente seu índice de fome. Em 1990, 13,5% da população venezuelana tinha fome, o que significa 4 milhões de pessoas. Hoje, este índice está em 5%, que ponto de vista estatístico já não são nem mais mensuráveis na Venezuela, ou seja, podemos dizer que o país chegou a praticamente zerar a fome”.

Na conceituação da FAO, um país precisa ter no mínimo de 1800 calorias por pessoa. Esse valor tem que ser o resultado de todos os produtos alimentícios disponíveis no país – os produzidos internamente e provenientes da importação, menos o que é exportado. Na Venezuela estão este valor é de 3.182 calorias. Quase o dobro.

“A Venezuela está alcançados os objetivos do milênio definidos pela FAO de erradicação da fome”, afirmou Resende.

Ele explicou que a segurança alimentar é definida por um tripé. “Uma país, um governo, um povo que quer cumprir com a segurança alimentar tem que assumir o direito humano a alimentação. Para isso, é preciso prever na Constituição, nas leis e decretos o reconhecimento desse direito humano. A Venezuela estabelece na sua Constituição o direito humano alimentação e à segurança alimentar. O segundo é seu governante assumir o compromisso erradicar a fome no seu país. O Lula fez isso no Brasil. E Chávez também pautou a fome na Venezuela, colocou isso na agenda política do seu governo. E o terceiro pilar é a garantia da disponibilidade e acesso aos alimentos”.
Para a FAO o problema da fome no mundo não é disponibilidade, é o acesso. São as condições econômicas que um povo tem para acessar os alimentos.

Marcelo Resende - Foto RMielli
Do ponto de vista da disponibilidade, Marcelo Resende diz ter ficado impressionado com as políticas públicas implantadas na Venezuela neste campo. Eu não conheço – e olha que eu conheço vários países no mundo – Nenhum país que promova a disponibilidade de alimentos como promove a Venezuela”.

Ele reconhece, contudo, que há uma contradição no país. “A disponibilidade dos alimentos na Venezuela é feita pela pauta de importação, não é pelo que é produzido internamente. Isso nós reconhecemos. A Venezuela depende de uma forte pauta de importações. Este país importou no ano de 2012, 5 bilhões de dólares em alimentos”.

Mas, o que o representante da FAO destaca como elemento inovador e positivo na política do governo para este setor é a criação de uma extensa rede pública de abastecimento. “Os supermercados privados não é onde a maioria do povo venezuelano se abastasse. O Estado criou uma rede pública de abastecimento incrível. São 22 mil pontos de abastecimento em todo o território nacional. Isso é incrível. A Venezuela é um exemplo como uma estrutura pública, estatal do acesso ao alimento. O Estado assegura à população o acesso ao alimento através de uma grande rede de disponiblidade”, enfatiza.

Política também para o acesso

Uma vez disponível na prateleira, o desafio para garantir a segurança alimentar é como garantir o acesso, que é a segunda parte da equação, que é um fator econômico, das condições que o povo tem para comprar o alimento.

Tabela de subsídios para produtos no Mercal
Dentro do receituário neoliberal, a equação que comando o acesso é a inflação x salário, ou seja, o poder aquisitivo da população para poder acessar o alimento. “Se tem uma alta inflação, como na Venezuela, eu reduzo a capacidade de compra com o meu salário. Isso é uma verdade. Portanto, a seguir galopante uma inflação a população venezuelana não teria o acesso ao alimento. Todavia, eles criaram um outro instrumento, que é subsidiar produtos na rede estatal de abastecimento. Não estou julgando se é bom ou ruim, mas foi o instrumento que eles criaram. Qualquer venezuelano por ir nesta rede pública de abastecimento e adquirir os alimentos com, em média 78% de subsídio. Isso atinge hoje 60% da população. Porque governar é fazer opção, não dá para todo mundo. A população que mais necessita frequenta essa rede pública e é lá que está o alimento de qualidade”.