domingo, 14 de abril de 2013

Motoqueiros são essenciais nas eleições venezuelanas

Jonatas Campos, de Caracas - Venezuela

Eles estão em todas as partes de Caracas, capital da Venezuela. Buzinam por qualquer motivo, geralmente cruzam o sinal vermelho e são maioria no trânsito caótico da metrópole caribenha. Os motoqueiros, ou por aqui chamados de “motorizados”, também são uma das partes mais importantes na mobilização e logística da campanha eleitoral no país. Seja monitorando as filas, carregando eleitores ou a serviço dos órgãos de fiscalização, eles estão espalhados pela cidade.

A reportagem do Comunicasul acompanhou Ramon Fernando na garupa de sua moto desde as 4h50 da madrugada. Ele faz parte da logística da Frente de Campanha Popular Hugo Chávez (Caphucha), reunião dos movimentos sociais do país que apoiam o candidato à reeleição Nicolás Maduro. A missão é clara: dar toda ajuda possível aos eleitores do atual presidente e diminuir a abstenção.



"Motorizados" fazem serviço de logística desde as 3h da madrugada




Na Venezuela as mesas eleitorais iniciam a partir das 6h e permanecem abertas até que a última pessoa que esteja na fila vote. Dessa forma, o trabalho dos motoqueiros inicia-se às 3h da madrugada transportando os fiscais dos partidos e mesários e estende-se por todo dia, levando água, comida e transportando eleitores, prática tida como normal no país.

“Este é um movimento criado para fazer a logística, levar os membros de mesa aos centros eleitorais, passar informes sobre as filas, garantir alimentação da militância e estar ativo a qualquer circunstância que possa ocorrer”, diz Rodolfo Vilera, porta-voz do movimento popular Acampamento dos Pioneiros, que compõe a Frente Caphucha. Eles são responsáveis pela área do município Chacao, que compõe a Grande Caracas e representa uma das zonas onde a oposição é majoritária.

Na madrugada a turma da Frente Caphucha toma um café para ir a rua

“Aqui não somos cachorros”, disse uma senhora logo da chegada do motoqueiro com a reportagem na porta da Escola Maria Auxiliadora às 5h50. Ramon Fernandes explica que por estarem presentes em uma zona oposicionista e serem fortemente identificados com o chavismo, às vezes escutam críticas e agressões. Ele garante que não se importa. “Só estou estacionando senhora”, respondeu.

Ao despedir-se da reportagem, já em Petare, maior favela das américas, situada no município Sucre e com mais de 500 mil habitantes, Fernandes confessa com um certo alívio: “aqui sim, tem muito chavista”.

O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) é um dos órgãos público que utilizam motos para o combate à boca de urna, proibida no país. O líder estudantil Diego Scharifker, do partido conservador Un Nuevo Tiempo, foi detido ainda nesta manhã (14) por estar em um carro chamando pessoas para votar, também no município Chacao.

PETARE

Ricardo Vargas é um dos líderes dos motoqueiros em Petare. Ele representa uma associação nacional que reúne mais de 100 mil deles em todo o país. A associação já participou de sete comissões técnicas da Assembleia Nacional para contribuir com a elaboração de leis de trânsito. “Somos os motoqueiros de Hugo Chávez Frias apoiando Maduro”, resume.

Em Petare, mobilização reúne mais de 400 motoqueiros

“Temos uma tarefa político-eleitoral. Estamos desde a madrugada apoiando nossos camaradas para que exerça seu direito ao voto. Estamos articulados em diferentes grupos, mas aqui em Petare contamos com 400 motoqueiros mais ou menos”, explica Vargas.

Assim como nas eleições de outubro de 2012, a oposição acusa o governo de usar os motoqueiros para “amedrontar eleitores”. Lúcia Digioia, professora e eleitora oposicionista, afirma que motoqueiros “com metralhadoras” ameaçaram eleitores no último pleito. Já as 8h40 da manhã de hoje (14) o diário El Universal apresentava em seu sítio na internet uma notícia acusando "motoqueiros identificados com o partido do governo" de agredir um grupo de jovens que se encontravam na fila para votar no município de Guatire, zona metropolitana.

Ricardo Vargas rechaça as informações de qualquer uso da violência por parte dos participantes de sua associação. “Jamais, de alguma forma, queremos confrontação com ninguém, temos disciplina revolucionária e estamos prontos para a batalha das ideias, do convencimento”, disse.

“Neste momento os motoqueiros estão sendo satanizados. Dizem que nós somos delinquentes. A moto é um veículo e assim, todo tipo de pessoa a utiliza”, explica Francisco Orellano que é líder de um dos coletivos de motoqueiros de Petare.

“Para a gente, a moto, o capacete, é parte de nossa família. Um elemento que te ajuda e também faz parte da mobilização, tem um papel histórico que estamos desenvolvendo. Também somos trabalhadores. Na rua nós apoiamos nosso povo”, conclui Vargas.