quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Hugo Chavez, um caso de amor



 O presidente fala com facilidade de amor e de socialismo com seu povo. “Chavez, coracion del Pueblo” pulsa em toda parte e foi cantada hoje centenas de vezes no encerramento da campanha eleitoral venezuelana.

 Por Terezinha Vicente, de Caracas-Venezuela

O dia começou a ficar vermelho logo cedo em Caracas nesta quinta-feira, 4 de outubro, data do encerramento da campanha presidencial venezuelana. A crescente passagem pelas ruas de ônibus lotados, motos desfilando bandeiras do PSUV- Partido Socialista Unificado da Venezuela, de Chavez, do “corazon de mi Patria” nos muros da cidade, do “corazon del Pueblo” na música da campanha,  e daqueles olhos. 

Olhos que estão por toda a parte no peito das pessoas e nas suas camisetas – olhos do “comandante”, que significam “Chavez está te vendo e você vê por Chavez”! Algumas pessoas me explicaram isso, pois essa marca já é antiga. Olhos e coração são os principais símbolos da campanha de Chavez...   E hoje, especialmente, eles tomaram conta de Caracas, nas milhões de pessoas que se dirigiram para a Avenida Bolivar e não couberam nela, então tomaram diversas ruas da região – Avenidas  Lecuna, Baralt, Urdaneta, México, Fuerzas Armadas e Universidad -  e esperaram Chavez debaixo de uma grande chuva, no encerramento desta histórica campanha. 


Foi emocionante. Aqui temos a certeza de estar vivendo um momento muito importante para a América Latina, a partir de uma disputa eleitoral que coloca claramente a questão do socialismo, em contraposição ao capitalismo. Um debate nas ruas, algo que no Brasil não se vê e parece bem longe o dia que isto aconteça.  E aqui o voto não é obrigatório, mas parece que o povo entendeu perfeitamente seu papel de sujeito da História, mobilizando-se e atuando na disputa entre dois projetos políticos completamente diferentes. Tivemos que caminhar alguns quilômetros a pé para chegar ao principal palanque da imensa manifestação, passando por ruas onde ônibus se enfileiravam depois de deixar aquele mar vermelho de gente, que parecia não ter fim para onde se olhasse.

Na fila do gargarejo, incansáveis cidadãos me disseram que haviam chegado antes das oito horas da manhã.  Eram duas da tarde e quando a chuva caiu torrencialmente, Hugo Chavez ainda não havia chegado e aquela imensa massa humana não arredou pé. E cantavam as músicas da campanha, e entoavam palavras de ordem tradicionais como o “povo unido jamais será vencido”, e declaravam seu amor ao presidente Chavez.  Entrevistei algumas mulheres que declararam amar Chavez, quando lhes perguntei por que votavam nele. Outras aprofundavam um pouco, falando da saúde, da moradia, de algo que o presidente teria feito por elas ou por seus filhos. As ruas próximas ao comício, e por onde passamos,  todas centrais, ostentam prédios em construção do programa “Gran Mision Vivienda Venezuela. Isto é tão visível nesta cidade, o Estado oferecendo moradia digna a seus habitantes, quanto as anteriores ocupações desordenadas dos morros pelos pobres, tal qual em nosso país.

Quando chega o presidente Chavez, cresce o ensurdecedor grito da multidão cantando para  seu “comandante”, que vai sozinho à frente do palco para cantar junto e falar com ela. É incrível a relação de intimidade entre este presidente e seu povo.  Avisou que falaria pouco, “por causa das circunstâncias” e falou por meia hora, molhando-se junto com o povo, embora a chuva tivesse diminuído de intensidade.

O “comandante” fala objetivamente da História, de Bolívar, da batalha de Carabobo, que dá nome ao comando de sua campanha eleitoral, mas fala também para o subjetivo das pessoas. O líder político fala para seu coração, fala palavras de amor sem inibir-se, valoriza o ser humano enquanto enumera as conquistas materiais e sociais promovidas por seus governos. Interrompe o discurso quando percebe um conflito no meio da massa e interfere. Fala com carinho para o povo  e contra os capitalistas, contra a burguesia e faz a multidão responder se o candidato da oposição continuará a Mision Vivienda, continuará a desenvolver o socialismo na Venezuela: não, não, responde o coro de milhão de vozes.

E o socialismo, “temos que construí-lo”, diz o presidente Chavez. O caminho parece bom, o povo aprovou o fim do analfabetismo, a saúde levada aos morros, agora estão orgulhosos da construção de tantas casas... “O socialismo estava morto e renasceu na Venezuela”, orgulha-se. Vamos ver se irá continuar...  No próximo domingo estaremos vivendo uma das experiências políticas contemporâneas mais instigantes, numa América Latina que se apresenta para o futuro do planeta. É realmente muito singular o que acontece na Venezuela.