terça-feira, 23 de abril de 2019

Alimentada pelos bancos, mídia chilena invisibiliza fracasso da capitalização da Previdência


Javiera e Rocío: pela democratização da informação
Linha de frente na luta pela democratização da comunicação no continente, Javiera Olivares, professora e coordenadora do Programa de Liberdade de Expressão da Universidade do Chile, e Rocío Alorda Secretária-Geral do Colégio de Jornalistas do Chile, são referências para todo aquele que queira compreender o papel jogado pelos meios de comunicação na disputa de ideias.


Por Felipe Bianchi (Barão de Itararé) e Leonardo Severo (Hora do Povo)*

sábado, 13 de abril de 2019

Filme de terror: chilenos denunciam ataque de ‘vampiros’ contra aposentadorias

Clube da Terceira Idade de Valparaíso: unanimidade dos aposentados contra as AFP (Fotos: Leonardo Severo)

Por Felipe Bianchi (Barão de Itararé) e Leonardo Wexell Severo (Hora do Povo)

Pascual Sanchez Espinoza: "São vampiros que te chupam"
Implementado em 1981, pela ditadura de Augusto Pinochet, o sistema chileno é considerado por especialistas um tremendo fracasso: apesar da promessa de que, capitalizando a poupança, as Administradoras de Fundos de Pensão (AFP) pagariam aos cidadãos cerca de 70%  do valor de seus últimos salários, a taxa de retorno é de 33% para homens e 25% para mulheres. Em termos de valores, a coisa fica ainda pior: 80% dos aposentados recebem menos que um salário mínimo no Chile, que é considerado o suficiente para sobreviver, enquanto 44% recebem valores abaixo da linha da pobreza.



RECHAÇO

É o caso de Pascual Sanchez Espinosa, 72, que trabalhou a vida toda como pedreiro. “As AFP são como piranhas”, dispara. “São como vampiros, que te chupam e chupam”. O sistema imposto por Pinochet tornou-se obrigatório desde o primeiro dia de sua imposição, mas como Pascual começou a contribuir antes, ele recebe a sua pensão através do sistema antigo de Seguridade Social. “Vivo com 150 mil pesos ao mês”, conta – o salário mínimo, atualmente, é de 300 mil pesos. “Se eu recebesse pelo modelo das AFP, o valor seria de 80 mil pesos”, o que daria, segundo ele, “para tomar chá”.
Victória trabalha 12 horas por dia, seis dias por semana
Victoria del Carmen Sanchez, 67, é outro caso que reflete a realidade de oito em dez idosos do país. A aposentadoria dela, somada a do marido, garante apenas o pagamento do aluguel. Por isso, eles têm de seguir trabalhando. “Temos uma filha que estuda arquitetura, então, trabalhamos por ela”, explica. Victoria e Joel são ambulantes, vendendo artigos de brechó em uma praça de Valparaiso. “Estamos aqui das seis da manhã até às sete da tarde, de segunda a sábado”.
Fernando Rios: péssimo
Fotógrafo profissional durante toda a sua vida, Fernando Rios Palma, 69, foi sucinto quando questionado o que opina sobre a possibilidade de o Brasil adotar o modelo chileno: “Péssimo”. Fernando, que vive com cerca de 200 mil pesos por mês, valor que ele diz ser suficiente para assegurar a cesta básica, também não perdoa os “algozes” do aposentado chileno. “O que as AFP fazem é um roubo. Estão roubando as pessoas, é pura sacanagem das pessoas que manejam este sistema”.

*O Coletivo de Comunicação Colaborativa ComunicaSul está no Chile com os seguintes apoios: Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Diálogos do Sul, Federação Única dos Petroleiros (FUP), Jornal Hora do Povo, Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Sindicato dos Metroviários de São Paulo, CUT Chile e Sindicato Nacional dos Carteiros do Chile (Sinacar). A reprodução é livre, desde que citados os autores e apoios.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

No Chile, capitalização traz miséria à aposentadoria e desnacionalização à economia

Milhares de chilenos voltaram às ruas no 11 de abril para dizer um basta às Administradoras de Fundos de Pensão (AFP)
Fotos: Leonardo Severo

Felipe Bianchi (Barão de Itararé) e Leonardo Severo (Hora do Povo) *

Economista formado na Universidade Católica do Chile, Marco Kremerman é representante da Fundação Sol – referência no debate sobre as Administradoras de Fundos de Pensão (AFP) – onde é pesquisador da área de Institucionalidade e Desenvolvimento. 

Kremerman recebeu a reportagem do ComunicaSul nesta sexta-feira (12), na sede da entidade, para falar das consequências da “privatização da Previdência pública chilena” e alertar os brasileiros para o descaminho, “em benefício de seis grandes companhias, na maior parte estrangeiras, que passam a multiplicar seus ganhos enquanto espalham a miséria em larga escala”.

Chilenos nas ruas em defesa do salário, do emprego e contra o assalto às aposentadorias

Basta às Administradoras de Fundos de Pensão (AFP)
Felipe Bianchi (Barão de Itararé) e Leonardo Wexell Severo (Hora do Povo)

Em defesa do salário, do emprego, contra os aumentos abusivos e o assalto às aposentadorias, centenas de milhares de chilenos tomaram, nesta quinta-feira (11), as principais cidades do país em um “Paro Nacional Activo” para denunciar a proliferação de ataques por parte do presidente Sebastián Piñera.

Com faixas e cartazes condenando as Administradoras de Fundos de Pensão (AFP), que privatizaram a Previdência pública para meia dúzia de companhias transnacionais especularem, arrochando brutalmente os valores das aposentadorias – que pagam aos homens somente 30% do último salário e às mulheres 25% -, a população se somou à paralisação, demonstrando o seu repúdio ao descaminho neoliberal do governo.

Vestindo camisetas com o rosto do ex-presidente Salvador Allende e do cantor Victor Jara, empunhando o azul e vermelho da bandeira nacional mesclado com o vermelho da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT) e o amarelo vibrante do movimento No+AFP (Chega de AFP), o povo animou e coloriu as ruas de Santiago, Valparaíso, Concepción, La Serena,  Antofagasta e dezenas de outras cidades, fazendo ecoar o chamado do “Basta!”.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Chile: capitalização da Previdência faz idosos morrerem trabalhando e suicídio bater recorde


   Corpo de Mario Enrique Cortes, aposentado de 80 anos, coberto por plástico na Praça da Constituição, em frente ao Palácio de la Moneda, em Santiago do Chile. Idoso morreu de insolação, trabalhando para fazer frente à minguada aposentadoria

Por Felipe Bianchi (Barão de Itararé) e Leonardo Severo (Hora do Povo), de Santiago do Chile
O regime de capitalização da Previdência no Chile, desejado pelo governo Bolsonaro, obriga os aposentados a seguirem trabalhando, muitas vezes, até morrer. É o caso de Mario Enrique Cortes, “jubilado” que, aos 80 anos, padeceu de insolação em pleno inverno, como jardineiro, em frente ao Palácio de La Moneda, em 2014. De lá para cá, o país vem acumulando episódios trágicos como este. Somado à onda crescente de suicídios na terceira idade – com tiro, enforcamento ou envenenamento -, o cenário escancara a realidade sombria de uma terra em que a aposentadoria foi transformada em negócio para benefício das Administradoras de Fundos de Pensão (AFP).

terça-feira, 9 de abril de 2019

Especialista em Previdência chileno desmente "fake news" de Paulo Guedes

Uthoff: "sistema de capitalização empobrece idosos". Foto: Leonardo Severo
“Apesar dos subsídios estatais, 80% das aposentadorias pagas no Chile estão abaixo do salário mínimo e 44% estão abaixo da linha da pobreza. O sistema fracassou e seria uma completa loucura implementá-lo no Brasil”, afirmou Andras Uthoff , consultor do Instituto Igualdad e professor da Universidade do Chile.  
Doutor em Economia pela Universidade de Berkeley, ex-assessor da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Uthoff avalia que “o sistema de capitalização tem levado multidões às ruas, pois empobrece idosos e nega direitos, enquanto é extremamente rentável às Administradoras de Fundos de Pensão (AFP)” . Devido à “falta de transparência” e à “desinformação” ditada pelos conglomerados midiáticos, que respondem aos “poderes econômicos e financeiros”, “as pessoas não se dão conta do quão mau é este sistema até que se aposentem”.“A realidade está se impondo, demonstrando que a capitalização é um desastre. A realidade é nossa melhor aliada”.
Uthoff recebeu os jornalistas do ComunicaSul na sede da CUT Chile, em Santiago, nesta terça-feira (9). Confira a íntegra da entrevista.
Por Felipe Bianchi e Leonardo Wexell Severo, de Santiago

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Chile: aposentadoria magra obrigava chofer de 71 anos a levar a esposa com Alzheimer ao trabalho

Dom Mário e dona Fresia: a dura face do "fake news" de Guedes

“Acordo às cinco e meia da manhã e faça chuva ou faça sol, frio ou calor, tenho que tirar minha senhora da cama para levá-la comigo ao trabalho. Me dá muita pena, porque a vejo dormindo e não queria, mas não tem outro jeito. O valor da aposentadoria é muito baixo e nada pode contra o valor dos remédios para o Alzheimer. Como não tenho com quem deixá-la, coloco sua roupa, escovo seus dentes, a levo no sanitário e a limpo porque ela é completamente dependente. Eu cuido dela sozinho, porém a situação ficou muito dura e isso me deixa bastante estressado. Já caiu do ônibus, precisa fazer suas necessidades em um recipiente. São sete medicamentos todo dia. Não aguento mais. Às vezes me dá vontade de nos suicidarmos".